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Ecossistemas de Inovação precisam desenvolver mecanismos de liquidez para investimentos em startups

Por inovemm | Notícias | 0 comentário | 20 dezembro, 2022 | 0

20/12/22

Por Marcus Rocha, Conselheiro e Especialista em Ecossistemas e Habitats de Inovação.
Escreve quinzenalmente sobre o tema no SC Inova. 

Ecossistemas de Inovação criam movimentos econômicos e sociais saudáveis, gerando Startups em quantidade e com qualidade. Considerando a natureza das Startups, com as incertezas de sucesso associadas aos altos graus de inovação, bem como o potencial de rápido e grande crescimento devido aos modelos de negócio escaláveis, ecossistemas bem sucedidos acabam criando uma necessidade intensiva de capital, para financiar o desenvolvimento das inovações e permitir a realização das escalas de negócio projetadas.

Portanto, a disponibilidade de venture capital é imprescindível nos ecossistemas de inovação. Importante destacar que essa expressão é frequentemente traduzida como “capital de risco”, o que talvez não seja a melhor interpretação. Sabendo que os recursos serão investimentos em empreendimentos inovadores, talvez uma melhor tradução seria “capital empreendedor”, já que os riscos são apenas alguns dos componentes envolvidos no empreendedorismo inovador, que é a finalidade e o objetivo dos negócios a serem desenvolvidos.

A disponibilidade de capital empreendedor deve partir de todas as “hélices” de um ecossistema de inovação, mas é inegável que a maior parte desse tipo de recurso deve vir de quem mais busca empreender e gerar lucros: as empresas e os agentes financeiros privados. Organizações da sociedade civil, principalmente aquelas ligadas às empresas, bem como Universidades e Centros de Pesquisa, e até mesmo entes da Administração Pública podem e devem também disponibilizar capital empreendedor para startups, mas de forma complementar àqueles aportes realizados em maior volume pela iniciativa privada.

Importante destacar que, para as startups, o dinheiro em si só irá resolver o problema da falta de dinheiro para desenvolver seus negócios. O investidor, seja um indivíduo ou fundo especializado, também precisa investir seu capital intelectual, empresarial e relacional, também chamado de “smart money“. Uma vez que o investimento foi feito na empresa, todos os que passam a fazer parte da sociedade precisam trabalhar pelo seu sucesso, o que será traduzido em um aumento expressivo do valor da empresa.

Quando uma Startup tem sucesso, traduzido principalmente pelo volume de negócios e pelo expressivo aumento do seu valor de mercado, surge a necessidade e a oportunidade de remunerar os investimentos realizados. Como normalmente a Startup ainda está em uma trajetória de forte crescimento, não se espera que sejam realizadas distribuições de lucro, pois são reinvestidos na própria empresa. Então cria-se a necessidade de criar liquidez, por meio da venda de uma parte ou de todo o capital social da empresa.

COMO IR ALÉM DAS AQUISIÇÕES E IPOs

No Brasil ainda são raros os movimentos de liquidez que apenas remuneram os sócios investidores. Seja por força de amarras contratuais, pela falta de segurança jurídica, ou de plataformas que proporcionem a negociação de cotas de capital social de startups que ainda tenham seu capital fechado, a liquidez que permite a realização dos lucros dos investimentos nessas empresas ainda depende quase que unicamente de operações de aquisições, já que as ofertas públicas iniciais de ações, também conhecidas pela sigla em inglês IPO (“initial public offering“), ainda são muito raras.

Nota-se, então, que os movimentos de liquidez realizados por meio de aquisições de startups são importantes para garantir a disponibilidade de capital para viabilizar novos investimentos. É algo para o qual os ecossistemas de inovação precisam prestar atenção.

O estudo “Exits, Investment, and the Startup Experience: the role of acquisitions in the startup ecosystem” (“Saídas, Investimentos e a experiência da Startup: o papel das aquisições no ecossistema de startups”, em tradução livre), recém divulgado pela Startup Genome, desenvolvido em parceira com o instituto Engine fala sobre a importância disso. O termo “exit” (saída) diz respeito exatamente aos eventos de liquidez que proporcionam o reembolso e a realização dos lucros dos investimentos realizados nas startups, por todos os seus sócios, tanto fundadores quanto investidores e outros acionistas minoritários.

O estudo demonstra que, mesmo nos EUA, os IPOs de Startups são muito raros. Outro ponto de destaque indica que nem todos os movimentos de aquisição de startups geram lucros, pois em alguns casos a aquisição dessas empresas acaba apenas devolvendo os recursos investidos ou amortecendo prejuízos. Assim, considera-se que há basicamente três tipos de saídas no ciclo de vida de uma startup: aquisição, IPO ou encerramento das operações. Um ponto interessante aqui, é que boa parte dos especialistas considera que, após uma “saída”, é encerrado o ciclo “startup” da empresa – questão polêmica, com certeza.

Pesquisa mostra que, nos EUA, 4% dos eventos de liquidez de startups foram IPOs (oferta de ações), 61% foram aquisições e 35% foram encerramento de operações ou falência. Foto: Wance Paleri (Unsplash).

O artigo “Irreplaceable Acquisitions“, publicado por Susan Woodward em 2021, realizou um estudo nos EUA, mostrando que apenas 4% dos eventos de liquidez de startups considerados na pesquisa foram IPOs, 61% foram Aquisições, e o restante (35%) foram o encerramento das operações ou falência. No Brasil ainda não há estudos similares confiáveis, mas a tendência é que a proporção de IPOs seja ainda menor. 

Independentemente do motivo, é necessário garantir a liquidez para que haja capital disponível no ecossistema para investir em outras empresas inovadoras, criando um círculo virtuoso de geração de riquezas. É muito bom e importante perceber a valorização significativa de startups investidas em um território, mas sem os eventos de liquidez a tendência é de escassez de recursos para investimentos nas novas startups que surgem, colocando em risco a sustentabilidade do ecossistema.

ESTRATÉGIAS PARA GARANTIR CICLOS VIRTUOSOS DE INVESTIMENTO 

Um outro ponto importante a ser destacado é que as aquisições de Startups são uma forma importante de demonstração de sucesso dessas empresas. Quando acontecem de forma regular, criam um clima favorável que estimula que outros investidores tenham maior confiança em aplicar seus recursos financeiros em negócios inovadores. Por outro lado, também estimula que outros potenciais compradores de startups – tipicamente empresas ou fundos de investimentos de maior porte – passem a buscar mais oportunidades de compras de startups bem-sucedidas. Em outras palavras, os eventos de liquidez “turbinam” a disponibilidade de capital no ecossistema, seja para investimentos em novos negócios, ou para a compra de empresas.

Isso traz uma responsabilidade adicional para as Governanças dos Ecossistemas de Inovação, que precisam desenvolver estratégias para garantir ciclos virtuosos de investimentos no local, com disponibilidade de capitais para o financiamento das startups no longo prazo. Inicialmente, é necessário desenvolver competências para os investidores locais, além de atrair investidores e fundos de investimentos mais experientes vindos de outros territórios, para criar um volume inicial de capital empreendedor.

Com o sucesso das Startups investidas, traduzido pelos eventos de liquidez causados principalmente por Aquisições, também precisam ser desenvolvidas estratégias para manter os ganhos de capital no território do ecossistema, com mais investimentos em novos negócios inovadores. Ou seja, é importante combater a fuga de capitais, o que obviamente deve ser desenvolvido por meio da melhoria contínua da atratividade das startups criadas no ecossistema.

Portanto, a atração e promoção de investimentos em Startups de um ecossistema de inovação, com o consequente estímulo à liquidez e ao reinvestimento dos ganhos dos investidores no próprio território, deve ser prioridade e inclusive pode ser considerada uma política pública a ser desenvolvida em nível local. Essa interpretação se deve às responsabilidades dos diferentes atores do ecossistema. 

Cabe claramente ao setor privado a maior responsabilidade sobre as questões financeiras. Já as organizações públicas precisam diminuir a burocracia, reduzir o apetite tributário, e garantir segurança jurídica. E as instituições educacionais precisam desenvolver bons investidores, por meio do ensino de boas práticas. Dessa forma, se desenvolve de forma sustentável mais um importante pilar do ecossistema local de inovação, aumentando as probabilidades de criar um território com altos níveis de desenvolvimento econômico e social.

Fonte: SC Inova

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